Os que me conhecem já há algum tempo, sabem da minha relação com a atividade turística. No inicio de 1984, recém saído da caserna, após cumprir minha obrigação com o serviço militar, já acostumado com o dinheirinho das despesas que todos os meses o Exército me proporcionava, e que livrava o meu saudoso e querido pai da obrigação da mesada, fui em busca de uma nova fonte de renda. Foi aí que o turismo e a hotelaria entraram na minha vida. Fui contratado como auxiliar de escritório, no Tropical Hotel Tambaú, de João Pessoa. A partir daí minha vida profissional esteve quase sempre condicionada ao turismo e a hotelaria.
Essa experiência inicial acabou por me levar a inúmeras outras que culminaram com cargos de gerência em hotéis como o Sol Mar e Ouro Branco, em João Pessoa, e os resorts Salinas, em Maragogi, e Nannai, em Porto de Galinhas, além da experiência como Secretário de Turismo e Meio Ambiente de Maragogi, Presidente da Associação dos Hotéis e Pousadas de Maragogi e Japaratinga, e vários outros trabalhos de consultoria.
Durante muitos anos fui, como tantos outros entusiastas da atividade turística, um ardoroso defensor do turismo convencional, exaltando o tradicional potencial do turismo de gerar emprego e renda, além de embasar meus argumentos na famosa capacidade do turismo de movimentar outros “52 segmentos da economia”.
Porém, esses quase 28 anos de intensa vivência na atividade turística, me mostraram também as faces ocultas da atividade. Pude constatar que a atividade não é tão justa quanto se propaga, e nem distribui tão bem a renda como se diz por ai.
Aos poucos fui me tornando mais crítico e reflexivo em relação a atividade, sem no entanto deixar de reconhecer sua importância econômica, em algumas situações específicas, até cultural, social e ambiental.
No momento, quero concentrar meus comentários na excessiva e retórica exploração do termo “sustentabilidade” pelos especialistas e profissionais da área, aproveitando os resultados obtidos com minha pesquisa de mestrado. Aí levanto o seguinte questionamento: há possibilidade de uma atividade tão influenciada pela hegemonia do capital ser realmente sustentável?
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Vista área da Praia do Porto Fonte: Newman Homrich, Qualta Resorts, 2007. |
Inicialmente é importante entendermos que modelo é esse representado pelo The Reef Club. Trata-se na verdade do que chamamos de Complexo Turístico Imobiliário. Na sua origem, os CTIs são a união dos resorts com as segundas residências, incrementados com outros equipamentos de lazer, e voltados principalmente para as camadas do estrato social possuidoras de maior poder aquisitivo, que buscam na atividade turística a oportunidade da prática do lazer e do ócio, livre dos problemas socioambientais. Na definição do quem vem a ser um CTI, já encontramos a primeira evidencia de sua insustentabilidade, o seu caráter segregador, a sua insustentabilidade social. O espaço de permanência dos autóctones, no caso especifico da nossa região, pescadores e agricultores, é modificado para receber um público especifico que busca lazer e descanso, criando-se ilhas de exclusão, expulsando muitos nativos para a periferia e ofertando-lhes as migalhas do desenvolvimento econômico.
Anúncio de investimentos estrangeiros no Nordeste. Fonte: Diário de Natal, 14 de março de 2008. |
O mais impressionante deste levantamento não são os valores a serem investidos em reais, mas a concentração de um número excessivo de terras em mão de poucos proprietários para fins essencialmente imobiliários e especulativos, muitos de capital estrangeiro.
Considerando-se os cerca de 3.306 km de extensão da costa nordestina e supondo que, na média, a área onde se concentra o foco de interesse de exploração turística seja uma faixa de 1 km a partir da linha de preamar, conclui-se que a área de maior interesse para exploração do turismo de sol e mar, e consequentemente para implantação de CTIs, correspondam a 3.306 km². Dos 53 CTIs identificados na pesquisa, 47 disponibilizaram informações referentes a área adquirida para implantação dos empreendimentos, resultando em 326,42 km² em mãos destes empreendedores. São quase 10% da área mais cobiçada e estrategicamente mais importante da zona costeira nordestina nas mãos de apenas 47 proprietários.
Só a InvesT Tur Brasil (hoje Brazil Hospitality Group - BHG), acumula em seu banco de terrenos e projetos mais de 82 milhões de m² em áreas da costa nordestina. No Piauí, no Delta do Parnaíba, os proprietários do empreendimento Ecocity Brasil possuem, para construção de um mega-complexo, 80 milhões de m², ou 80 km². Apenas estes dois empreendimentos representam quase 5% do filé da costa nordestina. Estamos vivendo uma nova era com novos latifundiários, os latifundiários do turismo!
Bem pessoal, por hoje ficamos por aqui. Já temos “muito pano pra as mangas”, agora é comentar, discutir!

Parabéns pelo artigo postado. O planeta Terra tem 4,5 bilhões de anos. A gente está aqui há, talvez 200 mil anos. Esse planeta já passou por piores momentos que nós. Terremotos, vulcões, movimento de placas tectônicas, tempestades magnéticas, enchentes, maremotos, eras glaciais etc. Certamente algumas sacolas plásticas e latas de alumínio não vão fazer a menor diferença. O planeta vai ficar aqui, nós é que não. Seremos mais um erro biológico que falhou. Ele vai nos chacoalhar para fora como pulgas ruins.
ResponderExcluirMudemos o discurso de “Que planeta estamos deixando para as novas gerações” para “Que gerações estamos deixando para o planeta”.
Prof.: João Medeiros
Muito bom seu comentário João Medeiros, realmente o conceito de desenvolvimento sustentável precisa ser revisto. Concordo plenamente quando você afirma que a questão não é o planeta que deixaremos para as gerações futuras, mas sim as gerações futuras que estamos formando e deixando para o planeta.
ResponderExcluirObrigado pela visita, espero poder continuar contando com suas participações inteligentes. Aproveite e se cadastre como seguidor, pois sempre que tiver atualizações você será informado.
Grande abraço!
Olá caro colega. Parabéns pelo artigo, digno de um autêntico prodemático!!!! kkkk
ResponderExcluirÉ chocante ver que temos novos "latifúndios". Fico abismada toda vez que vou a Recife... sempre tem alguma construção ou algo construído de um dia para outro. Aqui no Cabo e Ipojuca não tem sido diferente. E isso é apenas uma parte do grande "desenvolvimento" que está sendo preconizado para a região. Como educadora esperançosa que sou, acredito que precisamos fazer isso que você está fazendo: informar e formar as futuras gerações, mesmo diante dessa loucura que se tornou nossa vida cotidiana.
Gostei muito de ver seu blog... Aguardo mais novidades.
Abração!!!
Tatiana, que bom tê-la por aqui amiga "prodemática".
ResponderExcluirVocê como moradora da região do Cabo e Ipojuca sabe melhor do que ninguem o que é o tipo de "desenvolvimento" que chegou por ali.
Não sei se você já viu, mas teve uma materia recentemente que relata muito bem o que está acontecendo em sua terra com 38 mil operários trabalhando, se locomovendo e vivendo por ali. O link da materia é o seguinte: http://www2.uol.com.br/JC/especial/suape/ocupacao.html
Grande abraço.
Caríssimo Plínio.
ResponderExcluirFiquei sensibilizado com seu artigo. Embora tenha pouquíssimo conhecimento dessa área, vejo que, mesmo dentre os atores do ramo, existem alguns que, como você, se preocupa com a questão ecológica. Concordo com o João Medeiros quando afirma que o planeta terá sua forma de se defender de nossos abusos. Muito embora esse não seja o ponto de convergência dos que se preocupam com o meio-ambiente, penso esse Universo como sendo um organismo vivo e inteligente e capaz de se defender quase que da mesma forma como nosso corpo se defende dos invasores tóxicos. Mas nem sempre essa defesa surte efeito. Não estamos falando de meia dúzia de sacolas plásticas, mas de incontáveis toneladas que, diga-se de passagem, por falta de espaço, estão sendo importadas para o Brasil e só de vez em quando, desveladas por algum noticiário de TV. Temos que nos esforçar em fazer a nossa parte sim, se quisermos continuar nesse planeta maravilhoso que é a Terra.
Muito bom e também gostei do comentario de João. Cada vez melhor o blog!!!
ResponderExcluirCaro Trindade, muito bom ter sua contribuição. Também concordo com você e João Medeiros, o planeta tem suas formas de defesa, o planeta Terra vai continuar sendo o planeta Terra, nós é que temos que nos preocupar como iremos nos manter.
ResponderExcluirEspero que você continue particpando e contribuindo.
Grande abraço.
Ótimo comentário, verdadeiro editorial. Acredito que o Turismo Ecológico será o maior feito do Brasil na área de preservação do meio ambiente, pois só conhecendo a fauna e flora, poderemos educar aqueles que só conhecem a Selva de Pedras.
ResponderExcluirQuanto ao latifúndio, tomara que não passem a cobrar o acesso às Praias e Florestas, privatizando-as e excluindo aqueles que não podem pagar. Parabéns!!!
Eu assino sob a pergunta que aqui já foi dita...
ResponderExcluirPara “Que gerações estamos deixando para o planeta”?
Eu ainda compararia estes novos latifundios com os antigos feudos dos grandes Senhores.
Os tempos mudam, mudam os argumentos, e o povo continua achando que gerar trabalho e renda é o mais importante. Mas ninguém se pergunta pela qualidade e justiça na distribuiçao destes.
Affff...
Jane